domingo, 25 de janeiro de 2009

O Lugar da Casa


Uma casa que fosse um areal deserto;
que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso,
e à sua roda
se sentou a alegria;
e aqueceu as mãos;
e partiu
porque tinha um destino;
coisa simples e pouca.
Mas destino:
crescer como árvore,
resistir ao vento,
ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?,
a floração dos ramos,
que pareciam secos,
e de novo estremecem
com o repentino canto
da cotovia.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Acabou a crise! (pelo menos por 10 minutos...)

Pode ser pouco tempo: uns dias, umas horas, uns minutos!

Mas nem que seja por poucos minutos, acabou a crise. Desapareceram as notícias da crise, do desemprego, dos assaltos... Somos "bons" novamente! Ronaldo foi eleito pela FIFA o melhor jogador do mundo. E logo houve quem viesse recordar aos mais esquecidos que, numa década, este pequenino Portugal foi a Europeus (vimo-nos gregos mas fomos VICE-CAMPEÕES), Mundiais, foi Campeão Europeu e Campeão da UEFA (obrigada, Porto!!!), viu um treinador ser duas vezes eleito o melhor do mundo (viva o Mourinho!) e, hoje, o 2º Português (depois do Figo) atingiu o topo da montanha.

Esqueçamos por uns momentos a crise e recordemo-nos que, apesar de pobres e pequenos, temos um potencial fantástico!!!!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Se o meu coração fosse o mundo...

Se pudesse utilizar este espaço para exprimir os votos de muitas pessoas para 2009 (para além dos tradicionais desejos de paz, saúde,...), o que dizer?

Desejo que os mais jovens arranjem um trabalho digno.

Desejo que as famílias sejam mais harmoniosas e que cheguem os filhos a quem os espera.

Desejo que o tempo, a família e os amigos ajudem a curar as feridas de quem sofre.

Desejo que as pessoas sejam menos importantes e se importem mais umas com as outras.

Desejo que as pessoas se recordem da frase de John Kennedy "Não pergunte o que é que o seu país pode fazer por si, mas o que você pode fazer pelo seu país".


Bom 2009!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Receita do poeta para o Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar
que por decreto da esperançaa partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade